
Lua negra
Olha só pra mim
Eu não sei viver
Desembarco em náusea
E fim
O barco desaparecer
Perde o meu calor
Resfria o meu penar
Desfaz o meu temor
E fim
Não vai cicatrizar
Sou típico assim
E eu sei bem falar
Desabo o chão
E fim
Lanço-me para a lua
Esqueça o amor
Não vamos velejar
Mais vale o andor
E fim
À beira da rua
Não falo de mim
Não vou apelar
Todos tão assim
E fim
Enfim
Quando te atenta
Busca-me mamado de ilusão
Vê que estou mais não
Passava tempo eu aqui
Mas até primavera era
Solstício pré-verão
Quando esquentou eu fui
Demais derramou
Sangue de todo cristão
Para tempo eu sumi
Você atentado aí
Quem parou foi coração
Christina caminha lenta e sedutora entre minhas pernas com seu extremo traseiro arriba, nós dois na casa silenciosa. Minha cabeça inclinada sustentada pelo queixo e minha mão esquerda, apoiada pelo braço e cotovelo sobre a mesa, pois eu que ofereço minha atenção à distrações além da leitura, porém meus olhos ainda submersos em ondas eletromagnéticas convertidas em palavras complexas de Raymond Williams. Ela, exibida em sua jornada, ultrapassa meus dedões rumo ao lado direito, e o meu pé direito, pregado em sua última ação, como vagões que agem em uma locomotiva, se move brusco em sentido horário, onde meus calcanhares quase se esbarram, um ato fundamentado num propósito pentelho, mas ornamentado de enfado seguido de desespero muscular notabilizado por um choque nervo-tibial. Em retomada, antes de meu pé terminar a reação, Christina instintivamente repuxa suas vértebras lumbares - meu pé para - e salta sucessiva e horrivelmente apavorada numa altura de um metro, e, no mesmo lugar de onde originou o pinote, cai, andando, pacata, ainda sedutora e ilesa. Meus dedos, anelar e mínimo, são empurrados sutilmente pela bochecha. A propulsão: o canto em abertura do meu sorriso besta.
Mira na vontade
Descuida da tristeza
Acata a boa vaidade
Usa daquela destreza
Por fortuito diz à tormenta
Que agora quer mais não
Chama manhosa vida lenta
Guarda garrucha
Vai embora salvo e são
Baseia-se na minha textura manhosa, escrita, ou na rasura pelo meu ser que insiste em seriedades. Já que sou desconcerto longe, e com os dias piora, te estreito à tênue entre mim e o vento, que desfigura a viagem, aumenta o desgaste, sobrepõe uma saudade árdua na bagagem.
Está de poucos adjetivos, é mesmo. Cabeça voa, dinheiro pouco, situações ao acaso em ambas as partes, distantes. Ando banhado de combustível, paralelo ao cansaço. Eu que sou daquela ácida sexual definição dos astros. Chispa perto de mim, amor, chispa! A sensibilidade me rodeia. Venha, salve. Além do mais, seu ombro me varia entre a atenção em você e a calmaria, e meus cabelos penteia.
Rua mesma que sobe minha arrogância enquanto sol, e só desce estrelas nos céus arredores quando é volta pra casa. Saio é dia, fugaz, e não sou, e olho pra baixo: e meus quereres, e orgulho, e ambições, e materialidades, e tudo inútil. Volto é noite, e posso até ser, sereno. Olhando pra baixo a distância entre mim e a realidade é de aproximadamente um metro e setenta centímetros. Resolvo olhar para cima… O cachorro longe late, faço barulho com o portão. Cubro o céu com minhas estrelas de cimento.
Viúva casou-se de novo, desta vez com um gênio carrancudo, sobre o qual ela dizia ter de ser muito mais homem do que os outros homens. Certa vez ao enfrentar indelicadezas e lições do novo homem, esperou que ele fosse para o trabalho e deixou-lhe uns tapas num bilhete sereno:
“Casei-me com você eu era já mulher feita, de repente você me fez criança. Vou calar-me pra você, pois não quero de novo envelhecer. Você é o senhor do meu tempo.”